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As mulheres não foram apenas figuras decorativas na narrativa histórica nos trezentos anos da história de Minas Gerais
Há 1 mês

O dia 08 de março- Dia Internacional da Mulher- me fez refletir sobre o papel da mulher na historiografia mineira. Uma palavrinha que se tornou afamada no vocabulário de quem defende as causas femininas faz minhas pernas tremerem- não gosto de palavras glamourizadas e são menos que tentam parecer. “Empoderamento”, eis a dita palavra. Têm outras palavras que o valor atribuído atual não remete a tudo que significa. É sempre mais.

Parece que atribuir o poder concedido às mulheres é algo novo, todavia sempre esteve presente na história de Minas Gerais, que completa oficialmente trezentos anos em 2020, termos surgidos para valorizar as questões atuais, como as de gênero. Não! As mulheres do passado precisaram tomar frente, ou melhor, as rédeas de suas vidas. Por falta de opção, muitas das vezes, as mulheres tomaram o lugar de seus maridos ausentes no pulso firme das ações com a casa, das propriedades rurais, no comércio e agiram na política mineira com voz e coração.

No século XVIII Minas Gerais despontava na lavra de ouro, assim em Vila Rica, atual Ouro Preto, eram as mulheres, responsáveis por 70% das vendas, enquanto seus maridos garimpavam ouro. As escravas, conhecidas como “negras do tabuleiro” ficavam próximas das lavras de ouro, além de vender quitandas, com suas saias rodadas, ajudavam no desvio do ouro. Foi o comércio mais que o ouro a grande fonte de riqueza das alterosas mineiras.

Tantas mulheres tiveram importância singular e notável no contexto temporal da formação regional de Minas Gerais. Figuras, como Chica da Silva, d. Beija, Bárbara Heliodora, Maria Tangará, Joaquina de Pompéu não seriam elas empodeiradas, donas de si e à frente de seu tempo?

Infelizmente, a história omitiu muitas das realizações femininas, atribuindo-as aos seus cônjuges. Mas coube e cabe a nós historiadores desvendarmos este passado e mostrar a verdadeira face feminina na construção da vida cotidiana mineira. Sua importância era na maioria dos casos, limitadas pelo costume, cultura e tradição da época, porém a influência foi grandiosa.

Fico a pensar como seria o encontro da mulher da Minas Gerais nascente com a mulher mineira de hoje? Longe das figuras romanceadas que por muito tempo povoaram o imaginário dos leitores e o público das novelas.

Joaquina do Pompéu é uma personagem da história de outrora que gostaria de conhecer, conversar e assuntar agora. Foi responsável, entre tantos feitos, enviar para o Rio de Janeiro mais de 1500 cabeças de gado em 1808 para abastecer a Família Real e o detalhe, ela não cobrou pelo envio. Hoje a logística desse envio já seria grandiosa, imagine no início do século XIX, que o gado seguia tocado por tropeiros pelas estradas de Pompéu até o Rio de Janeiro.

Joaquina foi uma dessas mulheres que tomaram à frente dos negócios do marido e na lida da fazenda. Inácio de Oliveira Campos seu marido com quem se casou com apenas doze anos, era capitão de ordenanças, cargo responsável por manter a ordem nas vilas, função que demandava muitas viagens.
Joaquina do Pompéu exerceu papel predominante na política por sua boa convivência com a Família Real e graças aos seus contatos sua família sobressaiu em vários campos profissionais e políticos.

Rompeu os paradigmas da sociedade patriarcal da época, que era ligada ao patriarca da família, não tendo relevância mulheres e crianças na relação. O historiador Deusdetit Campos (2003) mostrou que devido a influência que matinha em toda região foi concedido a ela o direito de portar pistolas e armas para sua defesa.

Como não sentir a influência dessa mulher, com “M” maiúsculo na vida de hoje. Quando faleceu em 1824 deixou onze fazendas que compreendia mais de quarenta e oito mil quilômetros quadrados, território dos atuais municípios de Abaeté, Dores do Indaiá, Bom Despacho, Pitangui, Pompéu, Pequi, Papagaios, Maravilhas e Martinho Campos.

O Dia Internacional da Mulher é importante, reconhecimento já que nós mulheres ainda vivenciamos situações que nos degradam e não nos valorizam como seres humanos Como mudamos a nossa trajetória? Buscando inspiração por meio da história, conhecendo e lendo. Não esquecendo que o passado faz o presente e, logo o futuro depende do conhecimento e inspiração que almejamos alcançar.

Ana Maria Nogueira Rezende
Historiadora formada pela Universidade de Itaúna Mestre em Ambiente Construído e Patrimônio
Sustentável pela Escola de Arquitetura da UFMG
anitarezende@gmail.com